Friday, May 18, 2007


( Dentro da sala de refeições do Solstício: Em baixo de T-shirt branca sou eu,
e do meu lado direito, em pé, o Ricardo; os outros são marinheiros dos quais já não me recordo dos nomes)



1.ª Parte

Vai fazer dezassete anos, no próximo dia 31 de Maio, que embarquei na minha primeira aventura à Pesca do Bacalhau (1990).
Saí de Lisboa três dias antes. Apanhei o comboio para Aveiro. Comigo levava um saco desportivo com tudo o que precisaria nos próximos cinco meses: roupa, aparelhagem, livros e cassetes áudio. Tudo em pequenas quantidades.
Já em Aveiro tratei de me encontrar com um senhor, funcionário do antigo INIP (antigo Instituto de Investigação das Pescas, agora com a designação de IPIMAR) e amigo do meu avô, que tinha ficado de me "facilitar" o embarque nos navios do França Morte. Muito simpático, levou-me ao Sindicato dos pescadores para que me inscrevesse. Pouco depois era oficialmente membro da tripulação do navio Solstício.
Durante três dias, que levou o abastecimento do navio, fiquei hospedado no Stella Maris da Gafanha da Nazaré (uma espécie de hotel para embarcadiços que está espalhado um pouco por todo o globo). Neste período de tempo fiz duas amizades muito importantes: o Ricardo, de Almada. Ajudante de Maquinista; e o Mestre Cozinheiro, cujo nome, lamentavelmente, já não me recordo.
O cozinheiro simpatizou comigo e chamou-me civilizado, o que me garantiu a sua ajuda preciosa numa escolha mais agradável para as minhas funções a bordo.
Tornei-me no Moço da Copa, uma espécie de empregado de mesa encontra empregado de limpeza; também o trabalho mais levezinho e limpo a bordo de um navio de pesca.
Finalmente partimos e, se a memória não me falha, demorámos quinze dias a chegar aos mares da Terra Nova. Mas como eu enjoo facilmente, passei a primeira semana com a cor verde.
A minha função de moço da copa dava-me alguns privilégios para além de melhor comida e raro cheiro a peixe, tinha também um camarote só para mim, ao contrário dos meus colegas que tinham que partilhar camarotes de pelo menos quatro tripulantes. Melhor dizendo, o camarote não era bem só para mim, porque debaixo da minha cama dormia a cadela, mascote do navio.
Na minha "penthouse", ao longo da viagem, organizei vários "encontros sociais". Nestes podiam-se encontrar facilmente os seguinte ítens: muita cerveja, haxixe, música alta e boa conversa.
Mas já me estou a adiantar.
Nas primeiras semanas da viagem fiz mais dois amigos: um marinheiro de Algés, que tinha acabado de sair de uma clínica de desintoxicação. Vou chamá-lo de Paulo; e o Primeiro Imediato, também de Algés e amigo de infância do Paulo. O Rogério.
A vida a bordo era enfadonha e rotineira, excepto no meu camarote...
Até à Ilha de St. Pierre et Michelon, onde fomos abastecer a meio da viagem, ainda tiveram lugar alguns episódios fora do normal. A ordem pela qual os vou relatar não é exacta por falhas da memória de longo prazo. Estas falhas também são devidas a nunca ter contado a história desta viagem, de uma forma integral, a ninguém.



2.ª Parte

Como houve uma avaria a meio da viagem para a Terra Nova (falharam as bombas da água potável deixando o navio só a funcionar com água destilada, imprópria para consumo), gerou-se uma mini revolta da Bounty a bordo. O Capitão foi obrigado a sair da ponte - a única vez que o vi durante os cinco meses de viagem - para nos confrontar. Armado com a pistola no coldre, e com uma arrogância descomunal, ele parecia não querer arredar pé da rota actual por nada, especialmente por uma coisa tão corriqueira como a tripulação passar sede. Felizmente o Primeiro Imediato chamou-o à razão e lá fomos nós em direcção ao Faial, Açores, para reparar a avaria.
Não tenho memória do fiz nos Açores mas não foi coisa boa...
Finalmente chegámos aos mares da Terra Nova. Começou a faina.
Eu, de vez em quando, ia para o Parque de Pesca para ajudar no processamento do pescado. Mas sou obrigado a dizer que a maior parte da viagem tive uma vida santa.
O meu ego força-me a contar que fui um dos melhores moços da copa que por aquele navio passou. Estava sempre tudo num brinco.
Mais tarde, durante a faina, duas cargas muito peculiares, ou melhor, uma peculiar e outra bizarra, vieram nas redes misturadas com o peixe.
Primeiro foi um enorme peixe de quinze metros e várias toneladas, que os pescadores mais velhos disseram tratar-se de um peixe-porco (esqualídeo). E como é característico nestes peixes, a sua pele parece lixa, dificultando, por isso, a libertação deste. Dada a impossibilidade de o fazer escorregar pelas redes pelo mesmo sítio onde tinha entrado, em direcção ao mar, teve que se cortar as redes ao longo do peixe para depois erguê-lo com dois paus-de-carga.
Infelizmente, não só todo o processo demorou muito tempo, afogando-o, como os cabos passados em redor do peixe apertaram-no de tal maneira, devido ao seu peso, que lhe provocaram hemorragias internas. O peixe sucumbiu antes de chegar à água.
A outra carga, a bizarra, que veio nas redes de arrasto, foi um cadáver. Este tipo ainda tinha o oleado e as botas vestidos. O seu corpo estava mais ou menos preservado devido ao frio, embora com uma coloração verde. Só as suas mãos e cara é que só restavam os ossos. Deduzo que tenha sido comido pelos peixes. Do que era antes a sua boca, saía agora um caranguejo, dando uma aparência estranha de um filme do Indiana Jones.
Pusemos o corpo enrolado com plástico no porão de congelamento e contactamos na frequência de ajuda por algum navio que se dirigisse a terra para o levar.
Conseguimos transladar o corpo para um navio espanhol que se dirigia para St. Johns, Canadá. Coincidência das coincidências, nesse navio ia um tripulante que reconheceu o corpo através de uma pulseira de borracha que este tinha. Era o seu cunhado. Ele disse que o homem havia sido levado por uma onda há cinco meses atrás, e ele tinha presenciado tudo. Nunca se aplicou tão bem a máxima "há mar e mar, há ir e voltar".


3.ª Parte

Antes de iniciarmos viagem para St. Pierre et Michelon aconteceu algo desagradável. O meu amigo Paulo, não aguentando o stress de estar sem drogas durante tanto tempo, voltou-se para o álcool (como muitas vezes acontece nestas situações). Chegou ao ponto de os oficiais serem obrigados a tomar a decisão de o expulsar no próximo navio que fosse para terra. E assim, um dia, lá foi ele. Isto foi especialmente duro para o Rogério, oficial responsável por estas coisas e, ao mesmo tempo, amigo dele de infância. Ficamos todos a olhar para o bote que levava o Paulo para o outro navio. O Rogério chorava e teve que se retirar para, calculo eu, não minar a sua autoridade perante a tripulação.
Os próximos dias foram tristes...
Mais tarde, eu e o Rogério ficamos mais amigos. O gajo fazia-me rir com as suas anedotas. Ele e o Ricardo eram agora os meus melhores amigos a bordo daquele navio.
Quando chegamos, finalmente, a St. Pierre et Michelon descobri, com algum aborrecimento, que a língua oficial era o francês. Lá tive eu que puxar do meu francês fanhoso.
A cidade portuária era tipicamente ao estilo americano, apesar do governo francês. Cidade de linhas rectas, estradas paralelas que nunca mais acabavam, vivendas com entradas tipo varanda, e SUV's. Os cafés eram muito simpáticos e muito americanos também. E o gelado, a especialidade da terra, era maravilhosamente delicioso. - Comprei uns quatro baldes de cinco litros cada para trazer para Portugal mas nenhum resisistiu a viagem: comi-os todos! - As mulheres eram lindas, pareciam top-models.
Uma nota, os portugueses têm uma péssima reputação lá fora. Somos vistos como uns autênticos saloios (que somos). Coisa que percebi o porquê mais tarde quando vi os meus colegas marinheiros de chinelos e fato-de-treino a dançar numa discoteca.
Aqui o je, que nunca foi muito à bola com a maior parte da tripulação, só saía com os tipos civilizados. Entre eles estavam os meus dois e bons amigos, o Ricardo e o Rogério.
Divertimo-nos à grande e à francesa!
Enquanto o gosto do Ricardo recaía mais sobre a mulher madura, eu e o Rogério partilhavamos do mesmo gosto: novas, inteligentes e cómicas. Aliás, de tal forma partilhávamos o mesmo gosto que acabámos por fazer uma forte amizade com a mesma mulher. O Ricardo ficou-se pela mãe da nossa amiga.
A nossa amiga gostava tanto de nós os dois e sabia que iamos lá ficar pouco tempo, assim como ela que era turista canadiana de férias, que ficou implícito que não aconteceria nada entre nós. O problema foi que como eu sou despassarado, estas coisas passam-me ao lado. Então, dadas as diferenças notórias entre mim e o Rogério - ele oficial, eu o mais baixo posto no navio; ele alto eu baixo - eu resolvi dar um passo atrás no último dia e dei-lhes espaço para que acontecesse o que tivesse de acontecer. Grande asneira da minha parte. Ela ficou magoada e triste por esta iniciativa da minha parte sem fundamento algum, disse-me depois o Rogério enquanto me entregava um de dois brincos que ela tinha dado a cada um de nós como recordação de uma amizade que nunca se esqueceria. De qualquer maneira passamos uns momentos inesquecíveis.
Retomámos viagem.
Entre lutas com facas envolvidas e uma fuga de gás do sistema de frio que nos deixou a todos mal dispostos e em fuga para o convés, nasceram cãezinhos no meu camarote. Felizmente isto já aconteceu no fim da viagem, senão não dormia mais nenhuma noite descansado.
Após cinco meses de mar, chegamos a Aveiro.
Eu, o Ricardo e o Rogério despedimo-nos e nunca mais nos voltamos a encontrar.

Posted by Mr. Andre at 4:13 PM
Categories: and labels: ,

3 comments

Tuesday, April 24, 2007




Porque na maioridade nunca me vesti de mulher no Carnaval!
Quando somos putos, fazem de nós o que querem.
Apesar de (na fotografia) ser muito novo, percebi que havia ali algo de errado...algo que não batia certo. Foi assim que descobri que não estava fadado a ser transexual. De facto sentia-me (absolutamente) mais confortável na "pele" de rapaz.
Hoje em dia, ouvem-se tantas histórias na televisão daqueles homens que quando eram putos não se sentiam bem com sua sexualidade; vestiam roupa de mulher; brincavam com bonecas.
Pois bem, hoje eu venho trazer uma história que já é raro se ouvir: eu gosto de ser rapaz, e sempre gostei!
Parece que já estou a ouvir aaahhh's de espanto...
É verdade! Não há saia que me tente.
E nem pensar em maquilhagem.
O máximo que eu tolero, são os pensos para os pontos negros do nariz e a ocasional máscara verde (?) para a cara.
Mas também não tenho nada contra os transexuais. Bolas! Alguém tem que satisfazer o nicho de mercado dos políticos.

Posted by Mr. Andre at 4:28 PM
Categories: and labels: , ,

1 comments

Friday, April 20, 2007





Quando eu e os meus irmãos tinhamos as idades que se vêm, a minha mãe gostava de nos pôr em poses para as fotografias. Era frequente. Hoje somos todos modelos...nã!!! Estou a brincar.
Mas foi uma coisa importante que aprendi com a minha mãe: os momentos Kodak têm que ser estimulados.
Não sei se o gosto pela fotografia é hereditário, mas o que é certo é que também gosto muito, embora não tenha metade do talento da minha mãe...é pena!
Uma coisa boa nestas fotografias "teatrais", é que consigo apreciá-las muito mais do que as "normais". Não me canso. Além do mais transmitem não só as emoções do fotografado, como também as do fotógrafo.
Um pequeno pormenor, o meu irmão - o careca da direita - ainda não andava. Estava literalmente seguro às barras para não cair.

Posted by Mr. Andre at 3:18 PM
Categories: and labels: ,

1 comments

Tuesday, April 17, 2007



As noitadas que eu adorava fazer na Feira Popular.
Quando chegava o Verão fazia questão de lá ir com os amigos, comer e beber.
Intercalava o convívio na esplanada de um qualquer restaurante com o pontual andar à roda num qualquer divertimento até ficar enjoado.
A decadência da Feira Popular era, para mim, um requisito necessário para aquele ambiente de festa permanente. Mesmo os recorrentes concertos de música pimba faziam-me vibrar.
O início da Feira para mim foi quando era puto e a minha mãe ou restante família me levava a mim e aos meus irmãos. Era das melhores coisas que nos podia acontecer.
Mais tarde, continuei a tradição mas de uma forma mais madura: petiscos e cerveja! Muita conversa e gargalhadas em jantares que pareciam uma festa.
Um sítio especial que eu gostava de levar todos os meus amigos era o Rei dos Hamburgueres (na foto). Os melhores hamburgueres que alguma vez comi.
Devem estar a pensar - Hamburgueres??? - Claro que também ía a outros sítios e comia outras coisas mais portuguesas.
Os meus divertimentos favoritos eram os carros de corridas que andavam às voltas e os jogos electrónicos.
As farturas! O café da preta! O comboio fantasma!
Enfim, espero que a nova Feira Popular não seja demasiado sofisticada. Espero que tenha um travozito a decadência.

Posted by Mr. Andre at 1:05 PM
Categories: and labels:

0 comments

Tuesday, February 27, 2007





De vez em quando, lembro-me daquelas viagens nos fins-de-semana. Agora chamam-lhes o passeio dos tristes, mas na altura não tinham nada de triste.
Eu era puto e toda a minha família era imortal.
Eu, os meus irmãos, o papá e a mamã, num carro. No outro, os meus tios e o meu primo Zézinho.
Cascais, Sesimbra, Ericeira e, de vez em quando, Sintra, eram destinos certos. Naquela altura pareciam viagens intermináveis. As estradas eram outras.
Não havia nenhum plano de viagem, mas já sabiamos que nos íamos divertir.
O ideal era haver praia e restaurantes com esplanada.
Ninguém ficava obcecado com o destino, o que importava era, simplesmente, falarmos e divertirmo-nos que nem uns loucos.
Aprendi tanta coisa nesses passeios. Talvez o mais importante foi a ser feliz.
O meu pai e o meu tio, irmãos gémeos, tinham um feitio muito semelhante. Eram nervosos na condução e autênticos machos latinos, ou seja, não pediam orientações a ninguém.
Para equilibrar a balança, as respectivas mulheres, a minha mãe e a minha tia, faziam-nos chegar ao destino e, mais importante, a casa.
O meu tio costumava ir sempre devidamente equipado com: binóculos, luneta, câmara de filmar e máquina fotográfica. Portanto, quase nada ficava por registar.
Mas para mim, o melhor era falar interminavelmente com o meu primo: mais velho do que eu uns bons dez anos, era (e continua a ser) uma fonte de sabedoria inesgotável: Cinema, livros e música, eram a nossa filosofia de vida. E eu ouvia, perguntava e explicava as minhas últimas experiências. A minha irmã dividia as atenções do meu primo comigo, para minha grande ciumeira.
O meu irmão era um puto maluco mas sossegado em viagem.
A colecção de sensações desses passeios, que tenho guardada na memória, é uma parte importante de mim hoje em dia.
No entanto, não consigo deixar de pensar que agora cabe a nós, agora adultos, providenciarmos boas memórias aos "nossos" putos. Vai ser uma tarefa agradável...

Posted by Mr. Andre at 12:14 PM
Categories: and labels: ,

3 comments

 
>