( Dentro da sala de refeições do Solstício: Em baixo de T-shirt branca sou eu,e do meu lado direito, em pé, o Ricardo; os outros são marinheiros dos quais já não me recordo dos nomes)
1.ª Parte
Vai fazer dezassete anos, no próximo dia 31 de Maio, que embarquei na minha primeira aventura à Pesca do Bacalhau (1990).
Saí de Lisboa três dias antes. Apanhei o comboio para Aveiro. Comigo levava um saco desportivo com tudo o que precisaria nos próximos cinco meses: roupa, aparelhagem, livros e cassetes áudio. Tudo em pequenas quantidades.
Já em Aveiro tratei de me encontrar com um senhor, funcionário do antigo INIP (antigo Instituto de Investigação das Pescas, agora com a designação de IPIMAR) e amigo do meu avô, que tinha ficado de me "facilitar" o embarque nos navios do França Morte. Muito simpático, levou-me ao Sindicato dos pescadores para que me inscrevesse. Pouco depois era oficialmente membro da tripulação do navio Solstício.
Durante três dias, que levou o abastecimento do navio, fiquei hospedado no Stella Maris da Gafanha da Nazaré (uma espécie de hotel para embarcadiços que está espalhado um pouco por todo o globo). Neste período de tempo fiz duas amizades muito importantes: o Ricardo, de Almada. Ajudante de Maquinista; e o Mestre Cozinheiro, cujo nome, lamentavelmente, já não me recordo.
O cozinheiro simpatizou comigo e chamou-me civilizado, o que me garantiu a sua ajuda preciosa numa escolha mais agradável para as minhas funções a bordo.
Tornei-me no Moço da Copa, uma espécie de empregado de mesa encontra empregado de limpeza; também o trabalho mais levezinho e limpo a bordo de um navio de pesca.
Finalmente partimos e, se a memória não me falha, demorámos quinze dias a chegar aos mares da Terra Nova. Mas como eu enjoo facilmente, passei a primeira semana com a cor verde.
A minha função de moço da copa dava-me alguns privilégios para além de melhor comida e raro cheiro a peixe, tinha também um camarote só para mim, ao contrário dos meus colegas que tinham que partilhar camarotes de pelo menos quatro tripulantes. Melhor dizendo, o camarote não era bem só para mim, porque debaixo da minha cama dormia a cadela, mascote do navio.
Na minha "penthouse", ao longo da viagem, organizei vários "encontros sociais". Nestes podiam-se encontrar facilmente os seguinte ítens: muita cerveja, haxixe, música alta e boa conversa.
Mas já me estou a adiantar.
Nas primeiras semanas da viagem fiz mais dois amigos: um marinheiro de Algés, que tinha acabado de sair de uma clínica de desintoxicação. Vou chamá-lo de Paulo; e o Primeiro Imediato, também de Algés e amigo de infância do Paulo. O Rogério.
A vida a bordo era enfadonha e rotineira, excepto no meu camarote...
Até à Ilha de St. Pierre et Michelon, onde fomos abastecer a meio da viagem, ainda tiveram lugar alguns episódios fora do normal. A ordem pela qual os vou relatar não é exacta por falhas da memória de longo prazo. Estas falhas também são devidas a nunca ter contado a história desta viagem, de uma forma integral, a ninguém.
2.ª Parte
Como houve uma avaria a meio da viagem para a Terra Nova (falharam as bombas da água potável deixando o navio só a funcionar com água destilada, imprópria para consumo), gerou-se uma mini revolta da Bounty a bordo. O Capitão foi obrigado a sair da ponte - a única vez que o vi durante os cinco meses de viagem - para nos confrontar. Armado com a pistola no coldre, e com uma arrogância descomunal, ele parecia não querer arredar pé da rota actual por nada, especialmente por uma coisa tão corriqueira como a tripulação passar sede. Felizmente o Primeiro Imediato chamou-o à razão e lá fomos nós em direcção ao Faial, Açores, para reparar a avaria.
Não tenho memória do fiz nos Açores mas não foi coisa boa...
Finalmente chegámos aos mares da Terra Nova. Começou a faina.
Eu, de vez em quando, ia para o Parque de Pesca para ajudar no processamento do pescado. Mas sou obrigado a dizer que a maior parte da viagem tive uma vida santa.
O meu ego força-me a contar que fui um dos melhores moços da copa que por aquele navio passou. Estava sempre tudo num brinco.
Mais tarde, durante a faina, duas cargas muito peculiares, ou melhor, uma peculiar e outra bizarra, vieram nas redes misturadas com o peixe.
Primeiro foi um enorme peixe de quinze metros e várias toneladas, que os pescadores mais velhos disseram tratar-se de um peixe-porco (esqualídeo). E como é característico nestes peixes, a sua pele parece lixa, dificultando, por isso, a libertação deste. Dada a impossibilidade de o fazer escorregar pelas redes pelo mesmo sítio onde tinha entrado, em direcção ao mar, teve que se cortar as redes ao longo do peixe para depois erguê-lo com dois paus-de-carga.
Infelizmente, não só todo o processo demorou muito tempo, afogando-o, como os cabos passados em redor do peixe apertaram-no de tal maneira, devido ao seu peso, que lhe provocaram hemorragias internas. O peixe sucumbiu antes de chegar à água.
A outra carga, a bizarra, que veio nas redes de arrasto, foi um cadáver. Este tipo ainda tinha o oleado e as botas vestidos. O seu corpo estava mais ou menos preservado devido ao frio, embora com uma coloração verde. Só as suas mãos e cara é que só restavam os ossos. Deduzo que tenha sido comido pelos peixes. Do que era antes a sua boca, saía agora um caranguejo, dando uma aparência estranha de um filme do Indiana Jones.
Pusemos o corpo enrolado com plástico no porão de congelamento e contactamos na frequência de ajuda por algum navio que se dirigisse a terra para o levar.
Conseguimos transladar o corpo para um navio espanhol que se dirigia para St. Johns, Canadá. Coincidência das coincidências, nesse navio ia um tripulante que reconheceu o corpo através de uma pulseira de borracha que este tinha. Era o seu cunhado. Ele disse que o homem havia sido levado por uma onda há cinco meses atrás, e ele tinha presenciado tudo. Nunca se aplicou tão bem a máxima "há mar e mar, há ir e voltar".
3.ª Parte
Antes de iniciarmos viagem para St. Pierre et Michelon aconteceu algo desagradável. O meu amigo Paulo, não aguentando o stress de estar sem drogas durante tanto tempo, voltou-se para o álcool (como muitas vezes acontece nestas situações). Chegou ao ponto de os oficiais serem obrigados a tomar a decisão de o expulsar no próximo navio que fosse para terra. E assim, um dia, lá foi ele. Isto foi especialmente duro para o Rogério, oficial responsável por estas coisas e, ao mesmo tempo, amigo dele de infância. Ficamos todos a olhar para o bote que levava o Paulo para o outro navio. O Rogério chorava e teve que se retirar para, calculo eu, não minar a sua autoridade perante a tripulação.
Os próximos dias foram tristes...
Mais tarde, eu e o Rogério ficamos mais amigos. O gajo fazia-me rir com as suas anedotas. Ele e o Ricardo eram agora os meus melhores amigos a bordo daquele navio.
Quando chegamos, finalmente, a St. Pierre et Michelon descobri, com algum aborrecimento, que a língua oficial era o francês. Lá tive eu que puxar do meu francês fanhoso.
A cidade portuária era tipicamente ao estilo americano, apesar do governo francês. Cidade de linhas rectas, estradas paralelas que nunca mais acabavam, vivendas com entradas tipo varanda, e SUV's. Os cafés eram muito simpáticos e muito americanos também. E o gelado, a especialidade da terra, era maravilhosamente delicioso. - Comprei uns quatro baldes de cinco litros cada para trazer para Portugal mas nenhum resisistiu a viagem: comi-os todos! - As mulheres eram lindas, pareciam top-models.
Uma nota, os portugueses têm uma péssima reputação lá fora. Somos vistos como uns autênticos saloios (que somos). Coisa que percebi o porquê mais tarde quando vi os meus colegas marinheiros de chinelos e fato-de-treino a dançar numa discoteca.
Aqui o je, que nunca foi muito à bola com a maior parte da tripulação, só saía com os tipos civilizados. Entre eles estavam os meus dois e bons amigos, o Ricardo e o Rogério.
Divertimo-nos à grande e à francesa!
Enquanto o gosto do Ricardo recaía mais sobre a mulher madura, eu e o Rogério partilhavamos do mesmo gosto: novas, inteligentes e cómicas. Aliás, de tal forma partilhávamos o mesmo gosto que acabámos por fazer uma forte amizade com a mesma mulher. O Ricardo ficou-se pela mãe da nossa amiga.
A nossa amiga gostava tanto de nós os dois e sabia que iamos lá ficar pouco tempo, assim como ela que era turista canadiana de férias, que ficou implícito que não aconteceria nada entre nós. O problema foi que como eu sou despassarado, estas coisas passam-me ao lado. Então, dadas as diferenças notórias entre mim e o Rogério - ele oficial, eu o mais baixo posto no navio; ele alto eu baixo - eu resolvi dar um passo atrás no último dia e dei-lhes espaço para que acontecesse o que tivesse de acontecer. Grande asneira da minha parte. Ela ficou magoada e triste por esta iniciativa da minha parte sem fundamento algum, disse-me depois o Rogério enquanto me entregava um de dois brincos que ela tinha dado a cada um de nós como recordação de uma amizade que nunca se esqueceria. De qualquer maneira passamos uns momentos inesquecíveis.
Retomámos viagem.
Entre lutas com facas envolvidas e uma fuga de gás do sistema de frio que nos deixou a todos mal dispostos e em fuga para o convés, nasceram cãezinhos no meu camarote. Felizmente isto já aconteceu no fim da viagem, senão não dormia mais nenhuma noite descansado.
Após cinco meses de mar, chegamos a Aveiro.
Eu, o Ricardo e o Rogério despedimo-nos e nunca mais nos voltamos a encontrar.



